Por Alexandre Pellaes: “Quem precisa de chefe?”

Para discutir o futuro do trabalho, é importante considerar sua origem e como ele mudou ao longo do tempo. É necessário ir além do discurso organizacional e estrutural das empresas. Acima de tudo, é essencial compreender qual é o papel do trabalho na vida de cada pessoa. O trabalho pode ser visto como forma de escravidão ou como forma de emancipação, dependendo de dois fatores principais:

1. As condições do ambiente no qual a atividade está inserida;

2. A interpretação singular de cada pessoa na realização das atividades (o significado do trabalho).

O primeiro item engloba duas entidades centrais dentro da relação ser humano-trabalho: as organizações e a liderança; e está relacionado à forma mais tradicional do trabalho institucionalizado: o emprego. Por isso, é o fator mais estudado e amplamente discutido do ponto de vista consultivo, o que resulta na febre atual de “reinventar a gestão”. No entanto, a gestão é um espaço de interação com o trabalho, que acontece fora do indivíduo e que inclui as condições de entorno. É importante, claro! Mas, qualquer mudança de gestão só poderá ser possível e efetiva, se vier acompanhada de uma nova compreensão sobre o significado do trabalho para cada um de nós.

O desenho do futuro do trabalho está nas pessoas! Por que você trabalha? Como o trabalho impacta a sua vida? Há quem jure que a palavra “trabalho” vem do latim “tripalium”, que significa “três paus” – sem duplo sentido, por favor. Tripalium era um instrumento utilizado na lavoura e que, posteriormente, teria sido adotado como objeto de tortura para prender escravos enquanto eram açoitados. Curiosamente, o termo “trabalhador” era atribuído ao carrasco e não o escravo. (Portanto, não se abrace tanto ao sofrimento, hein…)

O conceito do trabalho como forma de obrigação e sofrimento está tão enraizado nas nossas mentes, que até quem gosta do seu emprego e gosta de trabalhar faz piadas negativas sobre o tema.

Essa raiz para a origem da palavra trabalho indica que sua aplicação estaria ligada ao conceito da atividade que causa dor, principalmente dor física. Portanto, sobre essa ótica: trabalho = atividade que causa dor. Historicamente, o trabalho foi ganhando novos papéis na vida humana, a partir do redesenho das principais relações de comando: senhor-escravo, empregador-trabalhador, chefe-funcionário, acionista-gestor-executor. Infelizmente, a maioria dessas conexões foi marcada por abusos e exploração.

O conceito do trabalho como forma de obrigação e sofrimento está tão enraizado nas nossas mentes, que até quem gosta do seu emprego e gosta de trabalhar faz piadas negativas sobre o tema.

É importante compreendermos que estamos criando o futuro do trabalho. Ele não está pronto, nos esperando. Nos encontramos em um momento de transformação da relação que temos com o trabalho e com as organizações. Por isso, precisamos atualizar nosso modelo mental com relação à nossa capacidade produtiva. Nunca fomos provocados a pensar conscientemente sobre o trabalho. Normalmente, usamos as palavras Emprego e Trabalho como sinônimos, para indicar a atividade profissional regular. E aqui, misturamos totalmente os conceitos.

O que uma pessoa pensa sobre si se torna parte essencial de quem ela é.

Trabalho é a sua relação com o mundo, por meio da ação. É uma relação complexa, espontânea, natural e realmente produtiva. Pode ser remunerada ou não. É uma relação de “ser”, onde você se enxerga e se mostra para o mundo. Emprego é a sua relação com um empregador ou líder hierárquico. Uma entidade de quem você tem interesse de receber algo. É uma relação simplificada, previsível e que pode ser falsamente produtiva. É uma relação de “ter”, onde você atende necessidades e expectativas pré-acordadas.

O trabalho tem três impactos principais sobre as pessoas:

– Financeiro: focado na sobrevivência, conquista de benefícios e realização de sonhos concretos que podem ser comprados.

– Social: relacionado ao impacto que causamos sobre as pessoas, a cada ponto de contato que realizamos durante nossa ação produtiva, além do alcance social extrapolado pelo resultado do nosso trabalho, produtos e serviços.

– Psicológico: ligado ao papel do trabalho para cada pessoa, como formador da sua identidade e senso de utilidade.

O que uma pessoa pensa sobre si se torna parte essencial de quem ela é. A grande mudança do mundo do trabalho é exatamente a migração do conceito principal da ação de Emprego para Trabalho. Deixamos a relação principal de sobreviver e caminhamos para o atendimento de outra necessidade, ligada à expressão.  Nesse contexto, teremos mais autonomia e precisaremos responder com mais autodisciplina e iniciativa. O desafio é grande, pois estamos chegando de um modelo que nos estimulou a agir mais por obediência do que por intenção.

Autorrealização (a forma como você se enxerga na sua relação com o trabalho), foco (a forma como você entrega sua contribuição na relação com a organização) e empatia (a forma como você estabelece suas relações com os outros) serão elementos essenciais para o sucesso.

Alexandre Pellaes é pesquisador de comportamentos/tendências do mundo do trabalho e gestão. Mestre em Psicologia do Trabalho pela USP, é fundador da consultoria Exboss.

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